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"Pereçam miseravelmente aqueles que pensam que estes homens fizeram ou sofreram algo vergonhoso." (Filipe II da Macedônia sobre o Batalhão Sagrado de Tebas, o Exército de Amantes)

13 abril 2026

Kuarahy e Jasy — Sol e Lua, o grande mito homomasculino tupi-guarani que foi heterossexualizado

Kuarahy e Jasy, Guaraci e Jaci, Coaraci, Sol e Lua, homossexualidade, mitologia tupi-guarani

 Eu sempre senti uma 'vibe' homoerótica entre o deus-sol Kuarahy e o deus-lua Jasy por alguns motivos que irei explicar a seguir, mas nunca havia conseguido encontrar uma fonte confirmando isso. Até agora!

Quando se fala de deuses das mitologias indígenas brasileiras (porque não há uma só), certamente, depois de Tupã, os nomes mais lembrados são os de Kuarahy (Kwarasy/Kuarahy/Kuaray/Coaraci/Guaracy/Guaraci) e Jasy (Jaci/Jacy/Yacy/Jachy), e não sem razão: eles são o Sol e a Lua para os povos tupis-guaranis, o tronco linguístico nativo mais numeroso de Pindorama/Brasil e um dos mais importantes da América do Sul (extensão de terra onde ficam os territórios tupi-guaranis e que eles chamam de Yvy Pyahu, "Terra Nova", criada após o fim da "Terra Primordial", Yvy Tenondé).

Sobre Kuarahy, à parte as muitas variadas formas de se escrever o nome dele com o alfabeto latino (e eu estou dando preferência à forma padrão atualmente adotada pelo guarani paraguaio, que é uma língua oficial do país vizinho e, até onde eu sei, a única língua tupi-guarani reconhecida como oficial por um governo nacional americano), nunca houve muita disputa quanto ao seu papel no panteão tupi-guarani, mas o mesmo não se pode dizer de Jasy, a começar pela maior controvérsia acerca da deidade lunar: o seu gênero. E isso, é claro, diz muito como o/a percebemos, desde os significados de seus mitos e, principalmente, sua relação com seu irmão e companheiro Kuarahy, ainda mais quando entra o deus do amor, Rudá, na meio da conversa.

Uma coisa que sempre me intrigou quanto ao sexo de Jasy é que somente em fontes de autores não-indígenas, que geralmente citam uns aos outros como fontes (Couto de Magalhães, Câmara Cascudo e outros) a Lua é feminina (a versão mais antiga que encontrei de Jasy mulher foi a de Couto de Magalhães em O Selvagem [1876], que faz uma leitura um pouco superficial dos mitos e não cita de quem ele ouviu ou mesmo de que povo indígena [ele só fala que "ouviu dos índios", até onde pude descobrir, pois não cheguei a ler o livro por completo]), enquanto em obras explicitamente colhidas da oralidade indígena, ainda que registradas por autores não-indígenas, como A Lenda de Jurupari (1890) do italiano Ermanno Stradelli e o Ayvu Rapyta (1959) do paraguaio León Cadogan (que informam de qual ou quais povos eles as coletaram, inclusive informando nomes de pessoas indígenas que eles entrevistaram) mencionam a Lua no masculino — como diz a crença dos mbyá-guaranis (para quem Kuarahy criou Jasy de uma planta) ou dos guaranis-kaiowás (para quem Kuarahy e Jasy são gêmeos de pais diferentes, mas de mesma mãe), ambos os povos da região da bacia do Rio da Prata e litoral sudeste e sul do Brasil, ou mesmo na lenda amazônica (norte do Brasil) de Naiá, a Flor de Irupé (Vitória-Régia), que queria ser uma das noivas de Jasy (isto é, uma estrela no céu).

Origem e Primeiras Aventuras

Cosmogonia Tupi-Guarani, Deuses Tupi-Guarani
Cosmogonia Tupi-Guarani (desconheço artista)
Segundo o livro Ayvu Rapyta ("Fundamento da Palavra") do pesquisador paraguaio León Cadogan publicada em 1959 pela Universidade de São Paulo (USP), Brasil, a mais vasta, elaborada e organizada teogonia tupi-guarani já escrita, reunindo relatos mitológicos diretamente de narradores guaranis, Kuarahy é filho de Nhamandú ("Origem, Princípio"), deus da luz e a primeira das quatro emanações do criador do Universo Nhanderú Ete Tenondé ("Nosso Verdadeiro Pai Primordial", às vezes um é identificado com o outro, como se fossem o mesmo ser) e associado ao Sul, sendo as outras três emanações Karaí ("Senhor"), deus do fogo e associado ao Leste; Jakairá ("Névoa"), deus do ar (neblina e ventos) e associado ao Norte; e Tupã ("Trovão"), deus da água (do mar e da chuva) e do raio e associado ao Oeste. Todos os deuses masculinos tupis-guaranis recebem a alcunha "Nhanderú" ("Nosso Pai"), e por isso muita confusão já foi feita quanto à identidade do deus criador, tanto pelas tribos América do Sul afora quanto por pesquisadores não-indígenas. Já a mãe de Kuarahy é uma garota púbere de nome ignorado, mas conhecida pela alcunha "Nhandesy" ou "Nhandeci" ("Nossa Mãe", como o é para todas as divindade femininas do panteão), engravidada por Nhamandú sob a forma de uma coruja. Revelando sua verdadeira identidade, Nhamandú a convidou a ir com ele para o céu, mas ela se recusou, temendo a ira da esposa de Nhamando, chamada Jassuká/Jaçucá ("Feminilidade") ou Araci/Arasy ("Mãe do Dia"), deusa-mãe do amanhecer, mas prometeu que ele poderia levar o filho quando este nascesse. Tanto Nhanderú Ete Tenondé como suas quatro emanações e suas quatro consortes são chamados de "Os Sem Umbigo" (Ipuru'a'ey Va'e), porque não nasceram de mães.

Grávida, Nhandesy foi atrás de Nhamandú guiada pelo filho em seu ventre, que conversava com ela, indo parar na morada dos Seres Primitivos (Mba'e Ypy), pelos quais foi morta e devorada, embora o filho, sendo de origem divina, não podia ser morto, e a avó dos Mba'e Ypy decidiu então criá-lo, e o menino cresceu ignorando o ocorrido com sua mãe. Ainda criança, inventou o arco e com ele flechava mariposas e, mais crescido, pássaros para alimentar a avó adotiva, e foi então que, numa de suas andanças e sentindo-se solitário por não haver outros como ele, o rapaz criou, de sua própria divindade, Jasy, a futura Lua, a partir de uma folha de kurupika'y (conhecido também como leiteiro, pau-de-leite e pau-leiteiro, por liberar látex, e mata-olho, por esse látex ser irritante para os olhos). Temendo que o jovem deus descobrisse a verdade sobre o destino de sua mãe, a avó proibiu os jovens de ir até um certo monte azul, mas, estando seu "irmão mais novo" (Tyvyra'i em guarani) curioso em saber o motivo, o mais velho (a partir de agora conhecido como Nhande Ryke'y, "Nosso Irmão Mais Velho") decidiu ir com ele até lá, onde ficaram sabendo de um papagaio que sua mãe fora devorada pelos Mba'e Ypy; Nhande Ryke'y (Kuarahy) apoiou-se em seu arco e chorou.

Guaracy & Jacy e o Apocalipse (Charia, Jaguar Azul, Onça Celeste) de Mari Morgan
Guaracy & Jacy e o Apocalipse, de Mari Morgan
Kuarahy e seu Tyvyra'i (Jasy) armaram armadilhas e mataram todos os Mba'e Ypy, menos uma mulher grávida que conseguiu se salvar graças a um descuido de Jasy e, por isso, Kuarahy a deixou viver, mas a transformou num jaguar (onça-pintada); tendo depois parido um macho, mãe e filho fornicaram e deram continuidade à raça dos jaguares, inimiga da raça dos homens. Depois Kuarahy tentou reviver a mãe a partir dos ossos dela, mas em todas as tentativas a afoiteza de Jasy em abraçá-la interrompia o processo, e então Kuarahy desistiu e transformou os restos da mãe numa paca. (Em algumas versões do mito Nhandesy é revivida por Nhanderu Ete Tenondé/Nhanderuvuçú e levada para a Terra Sem Mal, Yvy Marãe’ỹ, paraíso terreno no Leste, no além-mar do Pará-Guaçú [Oceano Atlântico].)

Seguindo sozinhos pelo mundo, Kuarahy ensinou Jasy sobre as frutas que encontravam no caminho e as variadas formas de prepará-las e comê-las (como se sabe, Jasy é a divindade que tem domínio sobre as frutas e vegetais em geral), até que se depararam com Charia, outro dos Seres Primitivos (Mba'e Ypy) — que mais tarde seria identificado na lenda como o Jaguar Celeste que tenta devorar Sol e Lua durante os eclipses e ameaça mergulhar o mundo nas trevas eternas. Pregando peças em Charia, que estava pescando, este acaba matando Jasy e o leva para ser cozido por sua esposa como um peixe. Kuarahy foi convidado a comer também, mas este recusou, pedindo apenas que lhe desse os ossos do "peixe", e ele reviveu Jasy. Por esse motivo é que a Lua vai diminuindo a cada noite, devorado por Charia (da lua cheia à lua nova), até voltar à sua forma plena, revivido por Kuarahy (da lua nova à lua cheia); e também é por isso que, no eclipse lunar, a Lua fica vermelha, manchada em seu próprio sangue enquanto é devorada por Charia.

Jasy descobre o sexo... com Kuarahy?

E agora finalmente chegamos onde eu queria depois de toda essa longa introdução (me desculpem, mas eu realmente queria que essa versão original, bem menos divulgada que a de Jasy mulher, fosse mais conhecida pelo público).

A partir deste ponto a estória se diverge em pelo menos duas versões diferentes. Jasy continua sendo homem (isso não vai mudar, apesar dos intentos de Couto de Magalhães e dos que se basearam nele depois, como Câmara Cascudo e o homoafetivo Mário de Andrade), mas em uma versão, a dos mbyá-guaranis, a primeira experiência sexual de Jasy é com uma mulher (conforme contado no Ayvu Rapyta), enquanto em outra, a dos apapocuva-guaranis, é com um homem, mais especificamente o seu próprio Ryke'y ("Irmão Mais Velho"), Kuarahy, segundo o etnólogo alemão-brasileiro Curt Nimuendajú (nascido Curt Unckel), no seu livro Die Sagen von der Erschaffung und Vernichtung der Welt als Grundlagen der Religion der Apapocuva-Guarani (1914) (em português: As Lendas da Criação e Destruição do Mundo Como Fundamentos da Religião dos Apapocuva-Guarani [1987]).

Homem Guarani Kaiowá com o rosto pintado de jenipapo no filme brasileiro Terra Vermelha (Birdwatchers, 2008)
Homem guarani kaiowá com o rosto pintado de jenipapo (similar a Jasy, leia mais abaixo)
no filme brasileiro Terra Vermelha (Birdwatchers, 2008)
De acordo com o Ayvu Rapyta (capítulo 8, versículo 46),

Lua costumava entrar sorrateiramente no quarto de sua tia paterna.* Querendo saber quem entraria com ela, sujou os dedos com resina e, à noite, enquanto a procurava às apalpadelas, espalhou a resina no rosto de Lua. No dia seguinte, Lua foi lavar o rosto para remover a resina. Não saiu; não saiu completamente. Só deixou seu rosto mais sujo.

*Tia essa não identificada, podendo ser Jassuká/Arasy (esposa de Tupã), Keressú (esposa de Karaí e deusa do fogo e da guerra protetora) ou Tatasy (esposa de Jakairá, deusa da neblina vivificante).

E agora compare com essa passagem da mitologia apapocuva-guarani registrada por Nimuendajú em 1914:

Por pouco que seja, quero acrescentar aqui o que mais consegui aprender sobre o Sol e a Lua. Eles são considerados irmãos; certa vez alguém me afirmou que seriam filhos de Nhanderú Mbaecuaá*. Durante a noite a Lua, movida por impulsos homossexuais, chega-se ao leito do irmão, que entretanto não consegue identificá-lo. Na noite seguinte, o Sol prepara uma cabaça com tinta negro-azulada de jenipapo, que respinga no rosto do visitante misterioso. No dia seguinte, reconhece nele seu irmão mais moço. Nhanderuvuçú**, então, coloca ambos no céu: o Sol, o mais velho, como astro noturno; a Lua, o irmão mais novo, como astro diurno. A Lua queimou a terra por se revelar demasiado quente; por isso o Sol foi posto em seu lugar, e a Lua banida para a noite. Ela tem vergonha de seu irmão mais velho, a quem não ousa mostrar o rosto redondo e manchado de jenipapo.

(Fonte [na página 66]: As Lendas da Criação e Destruição do Mundo Como Fundamentos da Religião dos Apapocuva-Guarani, de Curt Nimuendajú Unckel)

* "Nosso Pai Sábio", ser misterioso não muito claramente identificável, talvez Nhamandú ou mesmo Nhanderú Ete Tenondé, o criador (em outras versões Nhamandú e Nhanderú Mbaecuaá são rivais pelo amor de Nhandesy, que engravida de ambos, sendo o primeiro pai de Kuarahy e o segundo pai de Jasy, quando estes são gêmeos).

** O mesmo que Nhanderu-Guaçú, "Nosso Grande Pai", outro nome de Nhanderú Ete Tenondé, o criador.

Kuarahy e Jasy, Guaraci e Jaci, Coaraci, Sol e Lua, homossexualidade, mitologia tupi-guarani em Curt Nimuendajú Unckel - As Lendas da Criação e Destruição do Mundo Como Fundamentos da Religião dos Apapocuva-guarani
Trecho do livro de Curt Nimuendajú
Além do próprio fato de ser uma relação homossexual masculina acontecendo nessa versão do mito, outro ponto interessante é que a homossexualidade não é só de Jasy, que procura o irmão à noite, mas também do próprio Kuarahy, que não o rejeita e passa pelo menos duas noites com ele, apenas descobrindo quem é seu amante misterioso na manhã seguinte à segunda noite.

Eu já li outras variações do mesmo mito (muito semelhante ao de Eros e Psiquê, diga-se de passagem) de tribos de línguas diferentes dentro do tronco tupi (do qual fazem parte o tupi-guarani e suas ramificações), em que o deus-Lua (sempre um homem) faz sexo incestuoso com alguma parenta próxima (irmã ou tia, em geral) na calada da noite, e, para descobrir a sua identidade, a mulher que se deita com ele pinta o seu rosto com resina/jenipapo, que dá uma tinta preta duradoura, difícil de lavar, e na manhã seguinte o amante noturno é descoberto, que, via de regra, decide deixar a terra e ir para o céu por vergonha, tornando-se a Lua. Entretanto, essa versão dos apapocuva-guaranis registrada por Nimuendajú eu só decobri anteontem assistindo ao vídeo "JACI: deusa ou deus lua? - Uma perspectiva homoafetiva", do cantal 'Folclore Brasileiro Lendas' de Léo Machado, que coloco logo abaixo (até deixei um comentário lá, sob o nome "FábioMáximoSSA"), que trata do gênero de Jasy e do caráter homoerótico/homoafetivo do mito de Sol e Lua dentro da mitologia tupi-guarani. Imaginem então o quão elétrico eu fiquei a ponto de TER que escrever este artigo aqui (que já faz tempo que eu planejava) o mais rápido possível! (Sim, levei 2 dias para fazer este artigo.)


E, por favor, não me venham com churumelas sobre o incesto cometido nessas passagens (que, em mitos, geralmente é mais acentuado pelas pessoas quando se trata de uma relação do mesmo sexo); isso é um tema frequente e absolutamente comum talvez em todas as mitologias do mundo, que narram histórias em geral de uma mesma família divina, o que torna o incesto um motivo literalmente inevitável.

Mas voltando ao Ayvu Rapyta... O épico guarani continua logo após o evento do jenipapo na cara (que também explica por que a Lua tem a superfície manchada) com Kuarahy instando Jasy a disparar flechas para o céu com ele, a ponta de uma fincada no fundo da outra, até que se formasse uma "corda de flechas" que chegou até o céu, por meio da qual Jasy escalou até chegar na Yvaga, a morada dos deuses, chamados em tupi-guarani Nhande Ariguá ou Ñande Aryguá ("Aqueles que Estão Acima de Nós", ou, mais simplesmente, "Nossos Altíssimos") ou Mba'e Porãkuéry ("Seres Bons/Belos"), onde ele lavou o rosto e, dessa forma, fez chover na terra (como a face da Lua continua manchada, até hoje as chuvas, dizem, acontecem quando Jasy lava o rosto na tentativa ainda de limpá-lo). O companheiro, irmão e amante de Kuarahy se tornou "Nhanderú Jasy", "Nosso Pai Lua".

Charia, o Jaguar Azul, de Lorena Herrero (HET)
Charia, o Jaguar Azul, de Lorena Herrero (HET)
Kuarahy ainda ficou algum tempo por aqui, e chegou a ter um filho, que ainda pequeno fora morto por Charia (sim, ele, o mesmo que matou Jasy antes). Encolerizado, Kuarahy lutou com Charia, e as mordidas da besta representam o eclipse solar. Depois Kuarahy criou uma filha de um cesto e a deu a Charia, que fornicou com ela até destroçar o pênis; ele a castigou por isso, e ela voltou a ser cesto. Então Kuarahy lhe deu um cocar de plumas de fogo que queimou a cabeça de Charia e não se apagava nem mesmo mergulhando na água e, por fim, Karahy lhe arrebentou o intestinto, finalmente matando-o. A alma de Charia foi convertida por Kuarahy no pai dos Tupã Rekoé, agentes de destruição, divindades menores destruidoras da vida. Uma outra filha olhou esse acontecimento, contrariando Kuarahy, e ela morreu; Kuarahy a enterrou em vez de ressuscitá-la, e dessa forma quem quer que morresse não voltaria mais à vida.

Enfim, Kuarahy ascendeu à Yvaga, a morada dos Nhande Ariguá nos céus, e assumiu a sua função de Sol, ele mesmo se tornando um dos Nhanderús, "Nhanderú Kuarahy", "Nosso Pai Sol" (a luz no mundo, até então, emanava de seu pai Nhamandú, que, por si mesmo, como já dito, foi a primeira emanação de Nhanderú, a Luz no centro do Universo, depositando nele a luz de seu próprio grandioso coração). Kuarahy tornou-se, então, o regente do dia, enquanto o seu companheiro Jasy ocupou-se da noite, e eles só voltariam a se encontrar brevemente nos raros eclipses solares, o que é um perigo, pois eles se tornariam mais vulneráveis aos ataques de Charia, agora ascendido como Jaguarový, o "Jaguar Azul"/Jaguar Celeste (ou Onça Azul/Onça Celeste, seu grande inimigo e eterna ameaça à ordem do mundo).

Segundo Couto de Magalhães em O Selvagem (1876), Kuarahy tem sob o seu comando quatro deuses que cuidam da vida animal: Uirapuru, protetor das aves; Anhangá, que cuida do destino da caça no campo; Caapora, a quem foi confiado o destino da caça no mato; e Uauyará, o boto, guardião dos peixes.

Já os deuses submetidos a Jasy, associados à vida vegetal e/ou à noite, são: Saci, ser multifacetado (não aparece apenas como um garoto negro de uma perna só, de gorro vermelho e fumando cachimbo), guardião das matas e das ervas medicinais; Mboitatá, protetor dos campos contra aqueles que os incendeiam; Urutau, "pássaro-fantasma" em guarani, ave noturna anunciadora da Lua cujo lamento traz mau-agouro; e Curupira, deus que protege as florestas, fazendo mal-feitores perderem-se dentro delas.

Entra Rudá, o Deus do Amor

Agora eu gostaria de tocar no assunto de Rudá, também chamado Perudá (possivelmente uma corruptela de Pa'i Rudá ["Pa'i" é outro honorífico dado a grandes deuses, como é o caso de Pa'i Kuarahy, associado a "payé/pajé" e referenciando a deidade como dotada de poderes mágicos]), o deus do amor criado por Kuarahy para levar seus sentimentos a Jasy, com quem não podia mais se encontrar depois que ambos foram transformados no Sol e na Lua (ou, como diz a versão homossexual do mito, Lua evita se encontrar com Sol por vergonha de ter sido descoberto como seu amante noturno). A fonte mais antiga que encontrei sobre Rudá foi O Selvagem (1876), de Couto de Magalhães, que, como já mencionei antes, também é a fonte mais antiga que descobri que trata Jasy como deidade feminina.

Rudá, Deus do Amor, de Alex S. Oliveira (A Ameaça de Charía)
Rudá, de Alex S. Oliveira
As tradições figuram Rudá como um guerreiro que reside nas nuvens, no Yvaga (ou Yuáka, conforme canção a Rudá registrada por Couto de Magalhães). Sua missão é criar o amor no coração dos homens, despertar-lhes saudades, e fazê-los voltar para a tribo de suas longas e repetidas peregrinações. Como os outros deuses, ele tem também o seu séquito de deuses menores, a saber: Cairé ou lua cheia (jasy pyahu) e Catiti ou lua nova (jasy guaçú, "lua grande"), cuja missão é despertar saudades no amante ausente; o deus do amor tem tambem a seu serviço uma serpente (de nome ignorado) que reconhece as moças que se conservavam virgens, recebendo delas os presentes que lhe levam, e devorando as que hão perdido a virgindade.

Além de despertar o amor no coração dos homens e evocar a saudade, o deus do amor e do desejo age também como mensageiro entre o Sol e a Lua, sendo incumbido por Kuarahy de levar suas mensagens de amor para Jasy. Como Kuarahy e Jasy raramente se encontram após terem sido convertidos nos astros celestes, pois Jasy surge quando Kuarahy se põe, Rudá foi criado para comunicar esse amor.

Para Couto de Magalhães, Kuarahy, Jasy e Rudá são a grande trindade divina do panteão tupi-guarani (só por aí você pode ver que ele não foi muito fundo em suas pesquisas).

Tudo o que eu pude encontrar sobre a participação de Rudá na história de Kuarahy e Jasy, começando por Couto de Magalhães, apresenta a Lua como uma deidade feminina (o que acabou tornando a lenda de Irupé (a vitória-régia), em que Naiá é apaixonada por Jasy, em um conto sáfico/lésbico na mentalidade não-indígena atual). Assim, eu sempre fiquei imaginando se Magalhães não teria intencionalmente mudado o sexo de Jasy no seu livro para esconder o caráter homoerótico de sua relação com Kuarahy, ainda mais que ele descreve Kuarahy, Jasy e Rudá como a trindade suprema da religião (lembrando que ele não chega a mencionar a tribo indígena da qual ele colheu esses mitos, que eu saiba). Então, eu sempre imaginei que Kuarahy e Jasy poderiam ser na verdade um casal masculino com Rudá servindo de mensageiro entre eles, e, pelo menos parcialmente, pude conhecer uma versão homomasculina explícita do amor entre o Sol e a Lua no mito apapocuva registrado por Nimuendajú.

P.S.: Apenas a título de curiosiade, mais acima mencionei Kuarany sendo chamado de "Nhande Ryke'y", que quer dizer "Nosso (Nhande) Irmão Mais Velho (Ryke'y)". Ryke'y ("Irmão Mais Velho") é dito por um irmão mais novo do sexo masculino, enquanto Jasy é chamado de Tyvyra'i ("Irmão Mais Novo"), termo usado por um irmão mais velho também  do sexo masculino (nomes de parentesco em guarani são complicados, como se pode ver, variando não só com o tipo de parentesco em si, mas também o gênero das pessoas envolvidas).

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