Em uma história da Santeria (religião afrocubana), a orixá Iemanjá viaja para Laddó, uma terra povoada inteiramente por addodi ou adodi (homens que amam homens) e se apaixona por um deles.
Um dos muitos paradoxos de Cuba é a aceitação da homossexualidade/homoafetividade dentro do conceito de Santeria, uma religião de origem iorubá, outrora considerada primitiva e desviante, e agora adotada como símbolo do patrimônio nacional, um aspecto importante do folclore unificador e uma atração turística oficial. Além disso, é a religião afrocubana mais popular, ganhando cada vez mais adeptos em Cuba e na diáspora cubana. De fato, a Santeria é, de longe, a religião mais praticada atualmente em Cuba. A homossexualidade masculina — que tradicionalmente em Cuba significa homossexualidade passiva — não é apenas tolerada na Santeria, mas forma uma parte essencial de sua mitologia, filosofia e prática. Por mais paradoxal que possa parecer, a religião oferece um espaço único para a identidade e expressão homossexual/homoafetiva em uma sociedade sem uma "cena gay" oficial e com um histórico de machismo e andro-homofobia induzida pelo Estado.
Os Addodi de Laddó
El Monte (que você pode baixar gratuitamente aqui), da antropóloga, folclorista e poeta cubana Lydia Cabrera, é uma etnografia clássica de 1954 sobre a religião afrocubana e uma das primeiras a mencionar a homossexualidade (sem usar o termo em si) dentro da história e mitologia da Santeria. Cabrera, ela própria uma lésbica assumida, refere-se aos homens homossexuais/homoafetivos como "invertidos" (um termo coloquial antiquado) e à homossexualidade masculina como "o pecado nefando" ("nefando", "que não pode ser dito", um termo arcaico relacionado ao "pecado abominável da sodomia"). Ela escreve: "Há muito tempo se sabe que o pecado abominável era muito comum na Regla Lucumí [Santeria]". Ela menciona Papa Colas, um conhecido sacerdote de Santeria do final do século XVIII em Havana, que "era um famoso invertido casado com outro invertido... disfarçado de mulher... causando um grande escândalo". Ela também conta a história da orixá [deusa] Iemanjá (Yemaya em Cuba), que se apaixonou por um homem homossexual (ado no singular/adodi ou addodi no plural), conhecendo-o no país mitológico de Laddó, onde todos os homens são homossexuais/homoafetivos, ou como citado no livro, "maricas, mitad hombres" ("bichas, meio-homens"), e os protegeu. Esse mito contribuiu para a popularidade de Iemanjá entre os homens homoafetivos, incluindo afeminados.
Capa da edição estadunidense de El Monte
Eu descobri, enquanto pesquisava sobre essa história, mais material relacionado a isso em fontes diretas de afrocubanos santeros (praticantes da Santeria), mas deixarei para trazer em novas postagens para não deixar esta aqui longa demais. Infelizmente, porém, esse material traz bastante andro-homofobia embutida nos mitos santeros, como um outro amante homoafetivo de Iemanjá (talvez o mesmo do contado aqui, mas é difícil dizer) tratado como "maricas" que foi "consertado" e tornado "macho mulherengo", ele e outros de seus seguidores tiveram o ânus "trancado" para não voltar a praticar seu antigo "defeito" ou "vício" (lembrando que, para os cubanos, homossexualidade é somente a passiva) e que, mesmo a esses homens e mulheres homoafetivos iniciados, tornar-se Babalawo (Babalaô no Brasil, "sumo sacerdote") do culto de Ifá (oráculo iorubá) lhes é vedado.
Adodi entre os Deuses
Adodi é o plural de ado, que indica um homem que ama outros homens eroticamente (no Candomblé brasileiro, homens homoafetivos em geral, não só os afeminados, são chamados de ade). Em um pataki (fábulas iorubás da África Ocidental e Cuba), Iemanjá viaja para uma terra habitada apenas por adodi, como mencionado acima, onde se apaixona por um ado e se torna protetora desses adodi.
Orunmilá, foto de James C. Lewis
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| Ogum, foto de James C. Lewis |
Mitologias negras homoeróticas têm se apropriado do adodi para imaginar e representar um mundo mais íntimo.
E você já leu o artigo aqui no blog em que os filhos de Iemanjá, Inlé (ou Erinlé) e Abbata (ou Abata), são a origem divina do amor masculino?
Com todos esses exemplos nas mitologias da diáspora Africana nas Américas (e, quem sabe, outros na África dos quais ainda não sabemos), fica evidente que a Senhora das Águas e "Mãe de todos os Orixás" tem uma relação vasta e muito especial com os homens que amam homens.
A Sociedade Adodi
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| Símbolo da Adodi |
O princípio do conceito de adodi permeia os "Seis Princípios" da sociedade, que servem como guias para a construção de uma comunidade baseada em "amor, reciprocidade e respeito profundo e duradouro". Os navios negreiros que fizeram a angustiante Passagem do Meio (o comércio de africanos escravizados através do Atlântico) carregavam em seus cascos povos africanos com cosmologias vibrantes do mundo e de seu funcionamento, que apresentavam modelos para a tomada de ações éticas no plano material.
Andro-homofobia no Culto de Ifá
No culto de Ifá tradicional e em muitas casas de Santeria, o sacerdócio de Babalaô é historicamente restrito a homens heterossexuais. Isso ocorre porque os Odus (versículos sagrados) determinam que a perpetuação dos ensinamentos depende da procriação e de preceitos voltados à dinâmica heteronormativa.
Existem divergências e debates teológicos sobre o tema, que se dividem da seguinte forma:- Correntes Tradicionais e Ortodoxas: Baseiam-se em versos de Odus específicos (como Ojuani Boshe e Odi Meji) para justificar a interdição de homoafetivos no sacerdócio do oráculo. Nessas linhas, acredita-se que o Awo (sacerdote) precisa gerar descendência física e espiritual alinhada à tradição.
- Posicionamento no Brasil: Embora o Candomblé brasileiro acolha plenamente homoafetivos como sacerdotes (Babalorixás e Yalorixás), o culto a Ifá muitas vezes mantém dogmas mais próximos das raízes nigerianas ou diaspóricas caribenhas (Santeria), gerando tensões internas entre as diretrizes religiosas originais e a inclusão social contemporânea.
É importante notar que as regras variam significativamente dependendo da linhagem de Ifá e do Babalaô oficiante. Devido à complexidade das tradições iorubás, a interpretação pode mudar de um terreiro ou casa religiosa para outra.
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FONTES:
https://www.aaihs.org/cosmological-queerness-across-the-yoruba-diaspora/
https://www.adodi.org/
https://outtalesaroundthefire.com/2011/08/21/we-are-one-in-adodi-we-are-one-in-brotherhood/
https://periodicos2.uesb.br/odeere/article/view/1575
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