Leo é o nome latino da constelação de
Leão. Para os antigos gregos ela representava o Leão de Nemeia, morto pelo mítico herói
Héracles (
Hércules) como o primeiro dos seus Doze Trabalhos. Uma das 48 constelações descritas pelo astrônomo Ptolomeu do século 2, Leão permanece como uma das 88 constelações modernas, e uma das mais facilmente reconhecíveis devido às suas muitas estrelas brilhantes e a um distinto formato que verdadeiramente lembra o de um leão.
História & Mitologia |
Constelação de Leão (com Júpiter logo abaixo) |
Leão é uma das constelações mais antigas reconhecidas, com evidência arqueológica de que os mesopotâmios tinham uma constelação similar em 4.000 AEC. Os persas a chamavam
Ser ou
Shir; os turcos,
Artan; os sírios,
Aryo; os judeus,
Arye; os indianos,
Simha — todos significando "Leão".
Alguns mitologistas acreditam que, na Suméria, Leão representava o monstro Humbaba, que tem a face de um leão e foi morto por
Gilgamesh. (para saber sobre o homoerotismo no mito de Gilgamesh na astronomia, veja o artigo sobre a
androfilia zodiacal de Touro)
Na astronomia babilônica, a constelação era chamada UR.GU.LA, o "Grande Leão"; a estrela Regulus era conhecida como "a estrela que fica no peito do Leão", representando o Coração do Leão. Regulus, cuja palavra significa "Príncipe" ou "Pequeno Rei", tinha também distintivamente associações régias, pois era conhecida como a Estrela Rei.
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Héracles e o Leão de Nemeia (pinturas em cerâmicas gregas) |
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Hércules segurando a pele do Leão de Nemeia, séc. 1 EC |
Na mitologia grega, como já dito, Leão era identificado como o Leão de Nemeia, que foi morto por Hércules nos seus Doze Trabalhos. O Leão de Nemeia era invulnerável a qualquer arma; assim, para vencê-lo, Hércules teve que usar as mãos nuas e sua incrível força física, estrangulando o leão. Zeus, pai de Hércules, comemorou o feito colocando o leão no céu. Uma curiosidade que muita gente deixa passar: durante o combate corpo a corpo, o leão arrancou um dos dedos do herói com uma mordida. E, para esfolar o leão e usar a sua pele como couraça impenetrável, Hércules só conseguiu cortá-la usando as próprias garras do animal, por sugestão de Atena.
Os romanos a chamavam
Herculeus Leo (Leão de Hércules);
Violentus Leo (Leão Violento);
Bacchi Sidus (Estrela de Baco, já que Baco/Dioniso era às vezes identificado com esse animal, entre outros grandes felinos); e
Jovis et Junonis Sidus (Estrela de Jove/Júpiter e Juno).
Ideal de Masculinidade |
Hércules, de Silvio Canevari (1931). Stadio dei Marmi, Roma |
Héracles ou Hércules, em cuja homenagem foi criada a constelação zodiacal de Leão, é o maior dos heróis da mitologia grega, o modelo ideal de masculinidade, ancestral dos clãs reais que afirmavam ser Heráclidas ("descendentes de Héracles") e o campeão da ordem olímpica contra os monstros ctônicos. Entre os seus títulos e atributos estão o de guardião do Olimpo e deus da força, dos heróis, dos esportes, dos atletas, da saúde, da agricultura, da fertilidade, do comércio, dos oráculos e divino protetor da humanidade, com especial proteção sobre o gênero masculino. Vivendo entre os deuses no Monte Olimpo após a sua apoteose, os seus símbolos são a maça (clava), a pele do Leão de Nemeia e o arco e flechas.
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Hércules Farnese (216 EC; o original é do séc. 6 AEC) |
Hércules nasceu em Tebas, a principal cidade-estado da Beócia, região famosa por sua prática da pederastia, que consistia em relacionamentos amorosos socialmente reconhecidos entre homens, usualmente um adulto e um adolescente (mas que, diferente de outras regiões da Grécia, podia continuar na vida adulta), uma tradição consagrada no próprio mito fundador da cidade. Muitos personagens da região, míticos e históricos, são homens andrófilos, como o rei
Laio, o caçador
Narciso, os heróis
Hércules e
Iolaus, o general
Epaminondas (considerado o maior homem grego da antiguidade) e o renomado
Batalhão Sagrado de Tebas (formado por 300 guerreiros de elite, 150 casais masculinos que eram considerados invencíveis; aliás, no túmulo conjunto do Batalhão Sagrado em Queroneia, na Beócia, foi erigido um leão gigante de pedra conhecido como o
Leão de Queroneia). Além de tudo isso, a Beócia tinha
Eros, em seu aspecto de deus primordial, como a sua divindade de maior adoração; em muitos aspectos, como se sabe, Eros tem especial poder sobre o amor entre homens e é um dos patronos da pederastia em toda a Grécia, ao lado de
Hermes e, como não poderia deixar de ser, de Hércules.
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Hércules e o Leão de Nemeia (arte de Miguel Coimbra) |
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Hércules Farnese (visão traseira porque sim) |
Como símbolo de masculinidade e do ideal guerreiro, Hércules teve muitos amantes masculinos. Plutarco, em seu
Erotikos, sustenta que os homens que Hércules amou eram simplesmente
incontáveis. Em um momento mais oportuno farei artigos próprios sobre cada um desses amores masculinos do maior herói de todos os tempos, assim como um artigo especial sobre a pederastia na Grécia; são desejos muito antigos meus.
Sol, o regente de LeãoO Sol, ou aspectos dele, é representado por divindades masculinas e femininas que evidenciam o seu poder e a sua força. Deidades solares e o culto ao Sol podem ser encontrados por toda a história humana em várias formas.
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Leão e Sol (símbolo do Irã, antiga Pérsia) |
No Egito,
Atum é o deus criador de caráter solar que se masturbou e literalmente ejaculou o Universo. Segundo a religião egípcia, o atual regente divino do cosmos é
Hórus, jovem deus-sol que,
como já vimos aqui mesmo no blog, é um importantíssimo deus andrófilo e amante do seu tio e rival
Set. Falando deus-sol, lembremos de Rá, que também já foi
mostrado aqui no blog como o
Faraó Neferkare e o
General Sasenet mantinham um romance secreto e eram referenciados respectivamente como os deuses Rá e Osíris.
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A Queda de Faéton, de Gustave Moreau (1878). Note a constelação de Leão no alto |
Na Grécia, dois dos mais importantes deuses são associados ao sol:
Hélio e
Apolo, ambos andrófilos, cujas irmãs gêmeas, Selene e Ártemis, são associadas à Lua.
Faéton (ou
Faetonte), filho de Hélio e que provocou destruição por onde passou com a carruagem solar mal conduzida por ele, era um jovem amado pelo rei
Cicno, que lamentou a sua morte. No mito da criação da humanidade descrito por Platão e por Aristófanes, os
homens que amam homens, que originalmente eram as criaturas duplas cujos indivíduos eram conhecidos simplesmente como "
homem", descendem do
Sol, enquanto a "mulher" (as mulheres que amam mulheres) descendem da Terra e o homem-mulher (os andróginos, depois separados em homens e mulheres que amam o sexo oposto) descendem da Lua.
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Elagábalo, Sumo Sacerdote do Sol (Simeon Solomon, 1866) |
Durante o Império Romano, o festival que celebrava o aniversário de (re)nascimento (
Dies Natalis ou "Dia Natal") do Sol Invicto marcava o solstício de inverno, que no calendário juliano caía no dia 25 de dezembro. Com a dominação cristã no mundo romano, a data foi suplantada pelo aniversário de Cristo, também conhecido como "Natal" assim como o era para o Sol Invicto.
Elagábalo, o jovial imperador andrófilo (e afeminado) de origem síria, durante o seu governo negligenciou os deuses romanos e promoveu o deus-sol sírio também chamado Elagábalo (Elagabalus, Aelagabalus, Heliogabalus ou Ilāh hag-Gabal, "o Deus da Montanha") como a divindade mais poderosa de Roma.
Ainda durante o Império Romano, o Mitraísmo, também conhecido como Mistérios Mitraicos ou Culto de Mitra, era uma religião exclusiva para homens, com a presença maciça, mas não só, de soldados do militarismo romano, que se reuniam em templos subterrâneos chamados mitraeus. A segunda cena mais importante do culto é a do Banquete com o Sol. Nas imagens representando o banquete, o deus romano
Sol, completamente nu, senta-se reclinado sobre o colo de um
Mitra também nu, que "veste" apenas uma capa sobre os ombros e um chapéu e o abraça pelos ombros, e ambos estão sentados sobre a pele do touro que Mitra matou em sua mais importante cena da religião, a Tauroctonia (a "Matança do Touro"). A homossocialidade exclusivamente masculina do Mitraísmo tem atraído um grande número de pagãos modernos que preferem o conforto e a liberdade da intimidade masculina (a maioria deles, claro, são homens que amam homens), especialmente quando lembramos que o romano Mitra compartilha a mesma origem mitológica do deus hindu
Mitra, deus da amizade, dos juramentos e do Sol da manhã,
que vive um relacionamento sexual com outro deus masculino,
Varuna, deus da água, da chuva, do oceano, do anoitecer e da justiça. O Mitra romano originou-se do deus persa do Sol, da luz, dos juramentos e da justiça também chamdo Mitra, e, junto com o hindu Mitra, todos são derivados do antiquíssimo deus indo-iraniano Mitra, cuja etimologia do nome significa "pacto, tratado, acordo, promessa" e, consequentemente, também "amigo".
2 comentários:
Amei o seu blog, e saber que existe todo um lado mitológico e até sagrado sobre um aspecto humano que por tanto tempo foi tratado de maneira erronea como abominação e pecado. É um lufada de ar fresco e uma nova e bem vinda visão sobre a homosexualidade
Oi, Luã! É justamente por isso tudo o que você falou que eu criei este blog. Precisamos combater a mentirosa ideia de que homo-bi-trans-inter-assexualidade é incompatível com religião e espiritualidade. Praticamente todas as sociedades do passado e do presente (mesmo que a maior parte do mundo hoje em dia seja abraâmica) nos trazem uma visão bem diferente de nossas sexualidades e identidades, algumas vezes até as sacralizando e divinizando.
Precisamos resgatar isso, pois temos o mesmo direito ao sagrado que qualquer outra pessoa, e de não sermos tratados como pecadores e abominações que merecem ser mandados para o inferno.
Muito obrigado pela sua visita e seu comentário. Sinta-se sempre à vontade para retornar e comentar novamente.
Um grande abraço.
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