Na cultura tradicional do Havaí, o moe aikāne é um relacionamento íntimo entre parceiros do mesmo sexo, conhecidos como aikāne.
Algum tempo atrás eu publiquei um artigo sobre o passado homoerótico do Havaí, onde tratei da liberdade amorosa e sexual permitida entre homens havaianos e apresentei o conceito de aikāne, e agora vou me aprofundar mais nisso.
No Havaí pré-colonial (isto é, antes da infecção do cristianismo e dos "valores" ocidentais), essas relações eram particularmente valorizadas pelos aliʻi nui (chefes) e pelos kaukaualiʻi (nobres de escalão inferior) de ambos os sexos, como parte de uma hana lawelawe — um serviço esperado e socialmente aceito, sem qualquer estigma associado. Existiam vários termos havaianos para descrever os aikāne, incluindo hoʻokamaka e noho ai (uma expressão poética que significa "alguém com quem se deitar").
Os relacionamentos moe aikāne eram celebrados em muitas moʻolelo (lendas e relatos históricos), incluindo as sagas das deusas Pele e Hiʻiaka (infelizmente ainda não encontrei homoerotismo entre deuses havaianos masculinos). A maioria dos grandes chefes, incluindo Kamehameha I (1736 ou 1761– 1819)), mantinha relações moe aikāne. O Tenente James King afirmou que "todos os chefes as tinham" e relatou um episódio em que um chefe pediu ao Capitão James Cook (o primeiro explorador europeu a chegar ao Havaí, em 1778) que deixasse King com ele, considerando tal oferta uma grande honra.
A presença dos aikane de Kamehameha é registrada em vários relatos de viagem, e alguns estudiosos afirmam que o rei havia sido aikane do rei Kalaniʻōpuʻu e que sua rivalidade com outro aikane desencadeou uma série de eventos que culminaram na morte do Capitão Cook.
David Samwell, o cirurgião a bordo do navio de Cook, escreveu em seus diários em janeiro de 1779: “Dessa classe [de aikane] fazem parte Palea e Kanekoa, e sua função é praticar o pecado de Onã [sexo oral] com o velho rei [Kamehameha I]. Isso, por mais estranho que possa parecer, é um fato — como soubemos por meio de frequentes indagações sobre esse costume curioso — e trata-se de um ofício considerado honroso entre eles.”
Vários membros da tripulação de Cook relataram histórias sobre essa tradição com grande desprezo. O aventureiro e marinheiro estadunidense John Ledyard comentou detalhadamente sobre a tradição, conforme a percebia. As relações eram oficiais e de forma alguma ocultas. A relação sexual era considerada natural pelos havaianos daquela época.
A palavra e categoria social aikāne refere-se a: ai, ou "coito", e kāne, ou "homem", significando "homem para se ter relação sexual" (com outro homem, já que se tratam de relações do mesmo sexo). A origem etimológica da palavra atesta a origem homomasculina da tradição, mas em alguns moʻolelo (narrativas tradicionais) ou cânticos, mulheres e deusas (assim como chefes aliʻi) referiam-se às suas amantes como aikāne — como quando a deusa Hiʻiaka chama sua amante Hōpoe de aikāne. No final do século XIX e início do XX, a palavra aikāne foi "purificada" de seu sentido sexual pelo colonialismo e, na imprensa, passou a significar simplesmente "amigo"; contudo, em publicações no idioma havaiano, seu sentido metafórico podia indicar tanto amigo quanto amante, sem estigmatização.
Entre os homens, as relações sexuais geralmente começavam na adolescência e perduravam por toda a vida, mesmo que eles também mantivessem parcerias heterossexuais. Essas relações são aceitas como parte da história da antiga cultura havaiana. Embora o moe aikāne possa ser visto como um exemplo de uma comunidade nominalmente heterossexual que aceitava relações homossexuais e bissexuais, o autor Kanalu G. Terry Young afirma, em seu livro Rethinking the Native Hawaiian Past (Repensando o Passado Nativo Havaiano, numa tradução livre), que tais relações não eram bissexuais em um sentido social (como os héteros costumam dizer de todos os relacionamentos homoafetivos do passado). Tratava-se de relações típicas dos temposʻōiwi wale, que não acarretavam estigma algum para o ʻano (a natureza ou o caráter) do indivíduo. Segundo ele, "antigamente" um homem chupar outro homem não tinha nada de homossexual ou bissexual.
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| "Eles parecem ser muito bons amigos." |
Estudiosos propuseram razões práticas para as relações moe aikane, que variavam desde a construção de laços de confiança até a ascensão na rígida hierarquia social. Por exemplo, o aikane de um chefe poderia ser recrutado de um nível inferior da classe ali’i. Esse aikane poderia, futuramente, casar-se com uma mulher ali’i de status mais elevado, e seus filhos seriam chamados de kaukauali’i, uma designação para chefes de hierarquia menor. Kamehameha adotava filhos de plebeus para treiná-los como guerreiros ou em outras artes. Também há registros indicando que os aikane da realeza pareciam constituir uma categoria específica de pessoas, às quais era conferido um status social e político especial em decorrência de seu papel sexual. Embora alguns aikane tivessem suas próprias famílias, a maioria era composta por homens jovens.
Os aikane desempenham um papel importante nas lendas havaianas. Talvez a história mais conhecida do folclore havaiano envolvendo aikane seja a de Lono (Lonoikamahiki), o lendário chefe da Ilha Grande (Big Island, a maior ilha do Havaí) que lidera uma expedição a Kaua’i (a quarta maior ilha do Havaí). À medida que seus seguidores o abandonam, um homem, Kapa’ihi (Kapaʻihiahilina), permanece ao seu lado, explicando a Lono: "Eu te amo; por isso, te segui". Em breve farei também um artigo sobre eles.
Fontes:
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