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07 agosto 2026

Moe aikāne — amor e sexo entre homens no Havaí


 Na cultura tradicional do Havaí, o moe aikāne é um relacionamento íntimo entre parceiros do mesmo sexo, conhecidos como aikāne.

Algum tempo atrás eu publiquei um artigo sobre o passado homoerótico do Havaí, onde tratei da liberdade amorosa e sexual permitida entre homens havaianos e apresentei o conceito de aikāne, e agora vou me aprofundar mais nisso.

No Havaí pré-colonial (isto é, antes da infecção do cristianismo e dos "valores" ocidentais), essas relações eram particularmente valorizadas pelos aliʻi nui (chefes) e pelos kaukaualiʻi (nobres de escalão inferior) de ambos os sexos, como parte de uma hana lawelawe — um serviço esperado e socialmente aceito, sem qualquer estigma associado. Existiam vários termos havaianos para descrever os aikāne, incluindo hoʻokamaka e noho ai (uma expressão poética que significa "alguém com quem se deitar").

Os relacionamentos moe aikāne eram celebrados em muitas moʻolelo (lendas e relatos históricos), incluindo as sagas das deusas Pele e Hiʻiaka (infelizmente ainda não encontrei homoerotismo entre deuses havaianos masculinos). A maioria dos grandes chefes, incluindo Kamehameha I (1736 ou 1761– 1819)), mantinha relações moe aikāne. O Tenente James King afirmou que "todos os chefes as tinham" e relatou um episódio em que um chefe pediu ao Capitão James Cook (o primeiro explorador europeu a chegar ao Havaí, em 1778) que deixasse King com ele, considerando tal oferta uma grande honra.


A presença dos aikane de Kamehameha é registrada em vários relatos de viagem, e alguns estudiosos afirmam que o rei havia sido aikane do rei Kalaniʻōpuʻu e que sua rivalidade com outro aikane desencadeou uma série de eventos que culminaram na morte do Capitão Cook.

David Samwell, o cirurgião a bordo do navio de Cook, escreveu em seus diários em janeiro de 1779: “Dessa classe [de aikane] fazem parte Palea e Kanekoa, e sua função é praticar o pecado de Onã [sexo oral] com o velho rei [Kamehameha I]. Isso, por mais estranho que possa parecer, é um fato — como soubemos por meio de frequentes indagações sobre esse costume curioso — e trata-se de um ofício considerado honroso entre eles.”

Vários membros da tripulação de Cook relataram histórias sobre essa tradição com grande desprezo. O aventureiro e marinheiro estadunidense John Ledyard comentou detalhadamente sobre a tradição, conforme a percebia. As relações eram oficiais e de forma alguma ocultas. A relação sexual era considerada natural pelos havaianos daquela época.

"Petróglifos Aikane", inspirados nos petróglifos seculares encontrados em 2016 numa praia da ilha de Oahu, a terceira maior e a mais populosa do Havaí (este desenho não está entre os originais, é apenas uma criação artística)
Kamehameha III (1814–1854) manteve uma relação aikāne com Kaomi Moe, a quem elevou à posição de mōʻi kuʻi e aupuni kuʻi (rei e governante conjunto); Kaomi Moe desempenhou um papel importante na preservação da hula, a dança sagrada do Havaí, e de outras tradições indígenas, bem como na promoção da alfabetização (futuramente farei um artigo especial sobre ele, uma figura importantíssima na história havaiana).

A palavra e categoria social aikāne refere-se a: ai, ou "coito", e kāne, ou "homem", significando "homem para se ter relação sexual" (com outro homem, já que se tratam de relações do mesmo sexo). A origem etimológica da palavra atesta a origem homomasculina da tradição, mas em alguns moʻolelo (narrativas tradicionais) ou cânticos, mulheres e deusas (assim como chefes aliʻi) referiam-se às suas amantes como aikāne — como quando a deusa Hiʻiaka chama sua amante Hōpoe de aikāne. No final do século XIX e início do XX, a palavra aikāne foi "purificada" de seu sentido sexual pelo colonialismo e, na imprensa, passou a significar simplesmente "amigo"; contudo, em publicações no idioma havaiano, seu sentido metafórico podia indicar tanto amigo quanto amante, sem estigmatização.


Entre os homens
, as relações sexuais geralmente começavam na adolescência e perduravam por toda a vida, mesmo que eles também mantivessem parcerias heterossexuais. Essas relações são aceitas como parte da história da antiga cultura havaiana. Embora o moe aikāne possa ser visto como um exemplo de uma comunidade nominalmente heterossexual que aceitava relações homossexuais e bissexuais, o autor Kanalu G. Terry Young afirma, em seu livro Rethinking the Native Hawaiian Past (Repensando o Passado Nativo Havaiano, numa tradução livre), que tais relações não eram bissexuais em um sentido social (como os héteros costumam dizer de todos os relacionamentos homoafetivos do passado). Tratava-se de relações típicas dos temposʻōiwi wale, que não acarretavam estigma algum para o ʻano (a natureza ou o caráter) do indivíduo. Segundo ele, "antigamente" um homem chupar outro homem não tinha nada de homossexual ou bissexual.

"Eles parecem ser muito bons amigos."
Os missionários que chegaram logo após os primeiros exploradores também viam a prática do moe aikane com desaprovação. Eles assumiram a missão de "resgatar" os nativos desse "pecado abominável". Tiveram tanto sucesso em pintar uma imagem negativa das relações homoafetivas que um estigma passou a recair sobre as atividades homossexuais, e somente em tempos recentes a importância do moe aikane na sociedade e na política foi reconhecida.

Estudiosos propuseram razões práticas para as relações moe aikane, que variavam desde a construção de laços de confiança até a ascensão na rígida hierarquia social. Por exemplo, o aikane de um chefe poderia ser recrutado de um nível inferior da classe ali’i. Esse aikane poderia, futuramente, casar-se com uma mulher ali’i de status mais elevado, e seus filhos seriam chamados de kaukauali’i, uma designação para chefes de hierarquia menor. Kamehameha adotava filhos de plebeus para treiná-los como guerreiros ou em outras artes. Também há registros indicando que os aikane da realeza pareciam constituir uma categoria específica de pessoas, às quais era conferido um status social e político especial em decorrência de seu papel sexual. Embora alguns aikane tivessem suas próprias famílias, a maioria era composta por homens jovens.


Os aikane desempenham um papel importante nas lendas havaianas. Talvez a história mais conhecida do folclore havaiano envolvendo aikane seja a de Lono (Lonoikamahiki), o lendário chefe da Ilha Grande (Big Island, a maior ilha do Havaí) que lidera uma expedição a Kaua’i (a quarta maior ilha do Havaí). À medida que seus seguidores o abandonam, um homem, Kapa’ihi (Kapaʻihiahilina), permanece ao seu lado, explicando a Lono: "Eu te amo; por isso, te segui". Em breve farei também um artigo sobre eles.

Fontes:

- Wikipedia

Honolulu Weekly

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Moe aikāne — amor e sexo entre homens no Havaí

 Na cultura tradicional do Havaí, o moe aikāne é um relacionamento íntimo entre parceiros do mesmo sexo, conhecidos como aikāne .