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"Pereçam miseravelmente aqueles que pensam que estes homens fizeram ou sofreram algo vergonhoso." (Filipe II da Macedônia sobre o Batalhão Sagrado de Tebas, o Exército de Amantes)

30 julho 2026

A origem homossexual do homem na mitologia tupi-guarani (e na xerente)


 Esqueçam aquela estória de "Rupave e Sypave criados por Tupã". Isso é criação literária do século passado, não verdadeira mitologia tupi-guarani, que narra uma origem do homem MUITO diferente (e bem mais interessante!).

Quando eu descobri a verdadeira origem do homem na mitologia tupi-guarani, eu fiquei espantado com o conteúdo dessa história, muito emocionado mesmo, e triste ao mesmo tempo por ela não ser divulgada. E o motivo é bem óbvio: não é do interesse da heteronormatividade dominante que o público saiba que, na mitologia tupi-guarani, a humanidade era inicialmente toda masculina e homossexual, como vocês lerão a seguir, preferindo divulgar a criação literária do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) para sua teogonia ficcional do mito guarani intitulada Ñande Ypykuéra, publicada em 1922, em que Tupã, aqui tido como o deus supremo criador do mundo e da humanidade (coisa que ele nunca foi), criou o casal original Rupave e Sypave a la Adão e Eva, uma história que vai descambar nos "sete monstros lendários" (que não são encontrados nos mitos guaranis como tal) e num dilúvio mais bíblico do que indígena, e tem até um homem de Atlântida como ancestral dos guaranis e que deu nome ao Paraguai! Como vocês podem ver, nada que se possa levar a sério... MAS MUITA GENTE ACEITA ISSO COMO AUTÊNTICA MITOLOGIA GUARANI!!!

*respira fundo*

Sateré Mawé, povo tupi da Amazônia (Amazonas e Pará)
Ok, me recompondo... Vamos voltar à verdadeira mitologia tupi-guarani e sua criação do homem (e uma história idêntica encontrada entre o povo xerente do Tocantins, que não é tupi-guarani, mas jê). O texto acompanha referências bibliográficas para verificação do conteúdo.

A criação do homem (antropogonia) está, naturalmente, atrelada à criação do mundo (cosmogonia). Nos antigos mitos tupis colhidos no século XVI por missionários e exploradores cristãos europeus entre os tupinambás do Maranhão e outras regiões do Norte e do Nordeste do Brasil, o mundo e a humanidade foram criados por Umuan ou Umuana ("Antigo, Velho" em tupi), nome deturpado em Monã, Monan ou Munhã. O mito tupinambá não fala claramente que a humanidade primeva era inteiramente masculina, somente vamos entender isso quando — após o grande incêndio que Umuan enviou para destruir a humanidade degenerada pela ingratidão pelo seu Criador, que vivia entre eles, desvirtuada por levarem uma vida prazerosa e sem preocupações, seguido por um dilúvio causado por uma grande chuva enviada para apagar o fogo (que fendeu a terra, até então plana, criando vales e montanhas, e a água acumulada criou os rios e os mares) — foi criada uma mulher para ser companheira do único sobrevivente, Irãmajé ("Pajé do Mel"), também chamado Mair-umuana ("Mair-antigo" ou "Mair-de-Umuana"), o primeiro dos Maíras, e repovoar o mundo com homens melhores. O mito originalmente registrado pelo religioso francês André Thevet no século XVI não fala que ela foi a primeira mulher, mas um estudo de 2024 sobre a antiga cultura tupinambá informa isso (PINTO, Camille Nascimento da Silva; NEVES, Ivânia dos Santos. Sobre o manto tupinambá em Mairi: irrupções de memórias e pluralização do contemporâneo. 2024. p. 94.).

Homem kamayurá (tupi-guarani) pesca na lagoa sagrada do Ipavu.
Terras Indígenas do Xingu (Mato Grosso), Aldeia Kamayurá, 2011 (foto de Renato Soares)
Muito bem. Daí podemos compreender a humanidade anterior ao dilúvio tupi como masculina, que levavam uma vida de prazeres num mundo que era um paraíso... mas o mito tupi (infelizmente registrado só por cristãos) nada diz sobre se eles se relacionavam amorosa e sexualmente entre si. Claro que essa é uma conclusão óbvia, mas, quando se trata de mitos, o que vale é o que está registrado, não o que achamos ser.

A confirmação nós vamos encontrar na versão guarani da criação do homem.

Entre os guaranis (que fazem parte do tronco tupi), Nhanderu ("Nosso Pai", às vezes chamado de Nhamandu, em outras eles são entidades distintas) criou o mundo como um paraíso perfeito, o qual era conhecido como a Primeira Terra ou Terra Primordial (Yvy Tenondé). A criação da humanidade na Primeira Terra também é atribuída a Nhanderu, e as almas dos guaranis (nhe'ẽ) vêm do Yvaga, o céu onde habitam as divindades, cuja morada é na mancha esbranquiçada da Via Láctea. Segundo a versão mbiá (um dos grupos guaranis), as almas guaranis são criadas pelos quatro grandes deuses assistentes de Nhanderu: Nhamandu, Caraí, Jacairá e Tupã. (CADOGAN, León. Ayvú Rapyta, 1959, p. 39 em diante.)

As almas dos não-guaranis (brancos, negros, amarelos, e outros indígenas), numa adaptação do mito no pós-contato, provêm da Árvore Primitiva (Yvyra Ypy) ou Árvore Imperecível (Yvyra Marã E'ỹ) plantada por Nhanderu próximo à morada de Tupã (a oeste do céu), uma árvore colossal localizada em meio a um oceano pegajoso, mas invisível aos olhos daqueles que vivem aqui na terra, tão grande essa árvore que uma pessoa levaria mais de um ano para dar a volta nela, e indestrutível, pois, ao se tentar cortar um pedaço dela, ela logo se regenera. As almas não-guaranis surgem como lagartas (mbi'i) nessa árvore sob o comando de Mbi'ija (“dono das lagartas”; o guarani ja, dja ou jara vem do tupi îara, “dono, senhor”).(HUYER, Bruno Nascimento. Do efeito dos outros: crônicas sobre a mistura entre os Guarani-Mbya. 2017, p. 58–61.)

Modelo Brenno Xavier encarna homem potiguara (tupi) em editorial "Indio Perdido" de Netto Juvino
A primeira raça criada foi, obviamente, a guarani, mas Nhanderu fez os homens primeiro, as mulheres vieram depois. O Nosso Pai ordenou, então, um de seus filhos vir à terra para ver como o povo estava. Esse filho de Nhanderu veio e viu que os homens descobriram o amor uns pelos outros até que um deles apareceu grávido. O filho de Nhanderu voltou para o pai e relatou o que estava acontecendo, e então o Nosso Pai disse: "Volta lá e cria um parceiro para esses homens, uma mulher lá na terra." E o filho veio e criou a mulher (também se diz que a mulher nasceu da batata da perna do próprio Nhanderu, e por isso é mais fácil para as mulheres se aprofundarem na opy [casa de rezas] pois seu corpo é feito do corpo de Nhanderu [PIERRI, Daniel Calazans. O perecível e o imperecível: lógica do sensível e corporalidade no pensamento Guarani-Mbya. 2013, p. 83.]). Quanto ao homem grávido, como ele era fisicamente incapaz de dar à luz o seu filho aqui na terra, Nhanderu fez uma morada sagrada para ele, onde permanece até hoje. (TRAULITO [2010]. In: FERNANDES, Estevão Rafael. Decolonizando sexualidades: enquadramentos coloniais e homossexualidade indígena no Brasil e nos Estados Unidos. 2015, p. 41–42.)

Curiosamente, os xerentes, povo macro-jê (isto é, não é tupi-guarani) do Tocantins possuem um mito quase idêntico da origem do homem, documentado por Lévi-Strauss em 1943, que escreveu: “antigamente não existiam mulheres, e os homens eram homossexuais. Um deles ficou grávido e, como não podia parir, morreu.” (LÉVI-STRAUSS, Claude [1943]. In: FERNANDES, Estevão Rafael. Decolonizando sexualidades: enquadramentos coloniais e homossexualidade indígena no Brasil e nos Estados Unidos. 2015, p. 38.)

As raças das outras etnias, surgidas das lagartas da Árvore Primitiva ou Imperecível, foram criadas depois, e, da mesma forma que com os guaranis, primeiro nasceram os homens pela vontade de Mbi'ija, o “dono das lagartas”. A árvore era cuidada pelos guaranis a pedido de Nhanderu, que notaram as lagartas brotando dela, espantando os passarinhos que tentavam comê-las. Depois de vários dias as lagartas se enterraram em casulos até que destes nascem brancos, pretos, amarelos, etc., mas apenas homens e, quando os guaranis vão olhar, estão todos fazendo sexo uns com os outros. Os guaranis, lembrando que era assim também entre eles até o aparecimento do homem grávido, avisaram Nhanderu, que plantou então batatas ao lado dessa árvore. As batatas cresceram, se desenvolveram e viraram mulheres, cada uma de uma cor. Nhanderu mandou os guaranis juntarem-nos aos pares (preto com preta, branco com branca, amarelo com amarela) e levar cada qual para uma ilha (yy paû) diferente. (PIERRI, Daniel Calazans. O perecível e o imperecível: lógica do sensível e corporalidade no pensamento Guarani-Mbya. 2013, p. 83.)

Johnny Boy para a G Magazine #127 (2008)
Lendo a "solução" que Nhanderu encontrou, a criação da mulher, entendamos que isso não é uma condenação da homossexulalidade masculina, mas uma forma de a humanidade se reproduzir e evitar que mais problemas como o do homem grávido apareçam — embora a homomasculinidade nunca tenha desaparecido entre os indígenas. Como vocês já devem ter lido no artigo sobre a relação homoafetiva/homossexual dos irmãos divinos Quaraci (Sol) e Jaci (Lua), onde eles transgrediram o tabu do incesto, não da homossexualidade (que não é tabu para os tupis-guaranis), entendemos que a homomasculinidade não é condenada nessas culturas (ao menos quando não infectadas pelo cristianismo). Aliás, como vocês também já leram aqui no blog, amor e sexo entre homens é algo muito comum na história e na mitologia de diversos povos indígenas do Brasil.

Curiosamente, é uma relação heterossexual que vai causar a destruição da primeira humanidade na versão guarani, quando o caraí (um líder entre os pajés) de nome Tapari, apelidado de Jeupié e Joajué (ambos querem dizer algo como "amante ilícito", pois se trata do primeiro incestuoso), casou-se com a irmã de seu pai, transgredindo o tabu do incesto. Por esse crime, os deuses enviaram o dilúvio para acabar com a humanidade, poupando apenas os mais virtuosos. Ironicamente, Jeupié e sua tia-esposa estavam entre os poupados, pois alcançaram a perfeição (aguyjé) por meio da purificação espiritual com cantos, danças e orações (tudo isso estando dentro d'água do dilúvio!) e lhes foi permitido alcançar a Terra Sem Mal (Yby Marã E'yma em tupi e Yvy Marã E'ỹ em guarani), também chamada Nhanderu Retã ("Lugar de Nhanderu"), uma ilha-paraíso além do oceano Atlântico utópico onde não existem morte, fome, guerras, doenças, envelhecimento ou a necessidade de trabalhar. (CADOGAN, León. Ayvú Rapyta, 1959, p. 57-58.)

Para os mbiás, Jacairá (deus do ar, do vento e da neblina) e seu auxiliar Ixapi ("Orvalho"), apelidado Papá Mirĩ ("Pequena Completude"), após criar a terra atual (Yvy Pyahu, “Terra Nova”, também chamada Yvy Axy ou Yvy Vai, “Terra Imperfeita”), povoaram-na com a imagem (encarnação) dos espíritos que haviam existido na anterior, sacrificada pelo dilúvio. Em seguida, Jacairá criou os homens e as mulheres. (SCHADEN, Egon. A origem e a posse do fogo na mitologia guarani. 1954, p. 311.)

Já na versão nhandeva (outro grupo guarani) do mito, a segunda humanidade — aquela surgida após o dilúvio de Jeupié — fora criada quando Nhamandu (que tem o papel de Nhanderu entre os nhandevas) enviou um homem e uma mulher de cada morada dos deuses Tupã, Jacairá, Quaraí (aqui no lugar de Nhamandu) e Caraí, e esses casais tiveram filhos e repovoaram a terra. (PEREIRA, João José de Félix. Mborayu, o espírito que nos une: um conceito da espiritualidade Guarani. 2010. p. 64-66.)

A história de Rupave e Sypave, suposto casal primordial criado por Tupã, como já dito, não existe nos mitos guaranis. Eles são criações literárias do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) para sua teogonia ficcional do mito guarani intitulada Ñande Ypykuéra de 1922 (poema completo em espanhol).

Bem, aí está. Deixem nos compentários o que vocês acharam, e ajudem a divulgar mais essa estória, seja compartilhando este artigo ou simplesmente comentando entre conhecidos e postando nas redes sociais.

Um abraço e até a próxima.

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