O mais famoso ciclope da mitologia grega, Polifemo, é canonicamente andrófilo (bissexual), mais atraído por homens do que pelo sexo oposto, em obra clássica protagonizada por ele que pode ter inspirado, junto com a Odisseia, o segundo livro da série Percy Jackson.
Quem é fã de mitologia grega, ou pelo menos assistiu a algumas adapções da Odisseia para o cinema, sabe quem é Polifemo, o ciclope, gigante de um olho só filho de Poseidon, o deus grego dos mares, e inimigo do herói Odisseu (Ulisses para os romanos). Originalmente retratado como um monstro comedor de gente, beberrão, grotesco e pavoroso no nono livro da Odisseia de Homero, essas adapções costumeiramente falham em representá-lo em toda a sua complexidade como os antigos mitos o apresentavam: não só um bruto habitante de uma caverna, mas também um poeta apaixonado, tocador de cítara e flauta e compositor de versos, como no conto de seu amor pela ninfa marinha Galateia em obra de Filoxeno de Citera (Ciclope ou Galateia) duzentos anos depois de Homero, que, em Metamorfoses do poeta latino Ovídio, o rejeitou em favor de Ácis, filho do deus Fauno (equivalente romano de Pã), que foi morto então por Polifemo esmagado com uma rocha e posteriormente transformado num deus-rio da Sicília (ilha do sul da Itália), onde vive Polifemo.
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| O pintor barroco italiano Annibale Carracci retratou "Polifemo e Galateia" e "Polifemo atacando Ácis e Galateia" com as cenas homoeróticas de Apolo e Jacinto e de Zeus e Ganimedes acima de cada uma. Parte dos Amores dos Deuses (1597-1601), teto da galeria do Palazzo Farnese, Roma. |
Então chegamos ao drama satírico Ciclope, de Eurípides, que se baseia no episódio da Odisseia — apresentando algumas diferenças na narrativa e um caráter mais cômico, além de apresentar Polifemo como bissexual, mas mais atraído ao mesmo sexo do que ao sexo oposto.
É provável que Ciclope tenha sido a quarta peça de uma tetralogia apresentada por Eurípides em um festival dramático na Atenas do século V AEC, embora se desconheçam os contextos de encenação pretendidos e reais. A data de sua composição é incerta, mas a obra foi provavelmente escrita em uma fase tardia da carreira de Eurípides. O classicista britânico Richard Seaford (1949-2023) acredita que ela possa ter sido escrita em 424 AEC, mas a datação mais frequente situa a obra por volta de 408 AEC. Trata-se do único drama satírico completo da Grécia antiga que chegou até nós.
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| Ulisses fugindo da caverna de Polifemo, de Christoffer Wilhelm Eckersberg (1812) |
QUEM É POLIFEMO
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| Polifemo no filme A Odisseia (2026), dirigido por Christopher Nolan |
Odisseu encontrou Polifemo em seu retorno da Guerra de Troia e acabou preso na caverna do gigante. Para escapar, o herói embriagou-o com vinho e, enquanto ele dormia, cravou uma estaca em brasa em seu olho. O gigante, agora cego, tentou impedir a fuga de Odisseu arremessando rochas contra o navio, mas, ao fracassar, suplicou a seu pai, Poseidon, que se vingasse. Esse é o começo das agruras de Odisseu, que vagou pelo mar por 10 anos perseguido por Poseidon depois de outros 10 anos passados na guerra em país estrangeiro, até conseguir voltar para a sua ilha natal, o reino de Ítaca.
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| O cegamento de Polifemo, reconstrução proveniente da Villa de Tibério em Sperlonga, século I AEC |
POLIFEMO E SILENO
A história reaparece na literatura clássica posterior. Em Ciclope, peça de Eurípides, um coro de sátiros proporciona um alívio cômico em meio à história macabra de como Polifemo é punido por sua conduta ímpia ao desrespeitar os ritos de hospitalidade, sagrados na cultura grega antiga. O Polifemo de Eurípides é retratado como alguém sofisticado e intelectualmente semelhante aos sofistas (mestres filósofos da oratória) da época do autor.
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| Sileno com o menino Dioniso, cópia romana de meados do século II EC de um original grego de Lisipo (c. 300 AEC) |
Sileno é o deus da embriaguez e da vinificação, e companheiro e tutor do deus do vinho, Dioniso. Ele é tipicamente mais velho do que os sátiros do tíaso (thiasos), o cortejo dionisíaco — por vezes consideravelmente mais velho, caso em que pode ser chamado de Paposileno.
A peça se passa na Sicília, nas encostas do Monte Etna. Ela começa com um monólogo de Sileno, que narra como ele e os sátiros — seus filhos e seguidores — foram maltratados pelo gigante ciclope (a quem ele chama de Polifemo). Os sátiros agora vivem escravizados, trabalhando para o ciclope e pastoreando seu rebanho. Odisseu, que se perdera durante a viagem de volta da Guerra de Troia, chega ao local acompanhado de seus marinheiros famintos. Eles encontram Sileno e propõem trocar vinho por comida. Como servo de Dioniso, Sileno não resiste à tentação de obter o vinho, mesmo sabendo que a comida não lhe pertence para ser negociada. No entanto, o ciclope logo aparece, e Sileno rapidamente acusa Odisseu de ter roubado a comida.
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| Orgia de Sátiros, cílix de Nicóstenes (séc. VI AEC). Sátiros são espíritos da natureza selvagem que representam a sexualidade masculina livre. |
Odisseu trava um debate acalorado com o ciclope, argumentando contra a brutalidade deste e defendendo a moralidade, a lei, a justiça e a hospitalidade, ao passo que o ciclope defende o proveito pessoal e o prazer. Polifemo considera a ideia de justiça social uma farsa criada pelos fracos como proteção contra os poderosos; ele é, essencialmente, um ateu (anósios, ou seja, ímpio) e afirma que a única coisa digna de adoração é a riqueza. Após esse debate, o ciclope leva Odisseu e sua tripulação para dentro de sua caverna e devora dois deles. Odisseu consegue escapar furtivamente, atordoado com o que presenciara. Em busca de vingança, ele elabora um plano para embriagar o ciclope e cegá-lo com uma estaca em brasa, depois que o gigante tiver perdido a consciência devido à embriaguez.
Polifemo e Sileno bebem juntos, com Sileno tentando guardar o odre de vinho só para si. Quando o ciclope fica embriagado, diz ver os deuses e começa a chamar Sileno de seu Ganimedes (o belo príncipe troiano que Zeus tornou seu copeiro imortal e amante). Polifemo então leva Sileno à força para dentro de sua caverna, explicando que sente "mais prazer com rapazes do que com mulheres". Odisseu decide, então, executar a próxima fase de seu plano. Os sátiros haviam concordado inicialmente em ajudar, mas, quando chega a hora de agir, apresentam uma série de desculpas absurdas. Irritado, Odisseu recorre à ajuda de sua tripulação, e juntos eles cegam o ciclope.
Como Odisseu havia dito anteriormente a Polifemo que seu nome era "Ninguém" (οὔτις, outis), quando o ciclope grita dizendo quem foi o responsável por cegá-lo, soa como se ele estivesse dizendo que nada de errado aconteceu ("Ninguém me cegou!"), e os sátiros zombam dele por isso. Após Odisseu e seus homens escaparem da caverna, ele revela seu verdadeiro nome e parte, levando consigo os sátiros que desejavam acompanhá-lo. Enquanto isso, o ciclope corre para o topo da montanha para tentar afundar o navio que se afasta, arremessando grandes rochas, amaldiçoando aquele cuja identidade agora ele conhece.
Leia a seguir o trecho da peça Ciclope em que Polifemo se declara enamorado de Sileno, explicando que ele sente mais desejo por homens do que por mulheres:
Ciclope: Forasteiro, fique encarregado do vinho e sirva-me.
Odisseu: Pelo menos minha mão tem alguma familiaridade com a videira.
Ciclope: Venha, sirva então.
Polifemo com um companheiro de Odisseu, séc. II AEC Odisseu: Veja, estou servindo. Apenas fique quieto.
Ciclope: Esse é um conselho difícil para um homem que já bebeu muito.
Odisseu, entregando-lhe a taça: Aqui, pegue e beba tudo agora. Nada de deixar restinho. O beberrão e seu vinho devem terminar juntos.
Ciclope: Nossa, como a madeira da videira é astuta.
Odisseu: E se você beber muito depois de uma refeição farta e beber até que sua barriga perca a sede, isso o fará dormir. Mas se você deixar um pouco, Dioniso te secará.
O Ciclope bebe longamente.
Ciclope: Hurra, viva! Como eu estive perto de me afogar nisso! Isto é puro prazer. Acho que vejo o céu e a terra nadando juntos, vejo o trono de Zeus e toda a venerada companhia dos deuses. Não devo beijá-los? As Graças estão tentando me seduzir. Chega! Com este Ganimedes aqui, irei para a cama com mais glória do que com as Graças. E, de qualquer forma, sinto mais prazer com rapazes do que com mulheres. Ele coloca o braço em volta de Sileno.
Sileno: O quê, eu sou Ganimedes, o rapaz de Zeus, Ciclope?
Ciclope: Sim, por Zeus, a quem estou raptando da casa de Dárdano.
Sileno: Oh, estou perdido, meus filhos! Um destino terrível me aguarda!
Ciclope: Você não gosta do seu amante e torce o nariz para um bêbado?
Sileno: Ai de mim! Meu vislumbre do vinho logo se provará amargo demais! Sai o Ciclope, com o relutante Sileno, para dentro da caverna.
Sileno e Eros, Lácio, início do séc. I EC Odisseu: Venham, filhos de Dioniso, nobre descendência, o homem está lá dentro e logo, relaxado em seu sono, ele vomitará a carne de sua boca desavergonhada. Dentro do salão, a tocha está pronta, soltando fumaça, e não resta nada a fazer senão queimar o olho do Ciclope. Mas agora vocês devem mostrar sua masculinidade.
Líder do Coro: Nossos corações serão como rocha ou diamante! Mas entrem na casa antes que meu pai sofra algum desastre terrível. Deste lado, tudo está pronto para vocês.
Odisseu: Hefesto, senhor do Etna, queime o olho brilhante desta praga, seu vizinho, e livre-se dele para sempre! E você, Sono (Hipnos), filho da Noite (Nix) negra, venha com força total contra esta besta detestada pelos deuses! Depois de seus feitos gloriosos em Troia, não deixe que Odisseu, ele próprio e seus homens, morram pelas mãos de um homem que não ouve nem deuses nem homens! Caso contrário, teremos que considerar o Acaso como Deus e os deuses como mais fracos que o Acaso. Sai Odisseu, entrando na caverna.
O MAR DE MONSTROS
Polifemo é um dos principais antagonistas do segundo livro (e adapções para o cinema e a TV) da saga Percy Jacskon e os Olimpianos, "O Mar de Monstros". Ele é um ciclope cego, filho de Poseidon, que habita uma ilha no Mar de Monstros (atualmente localizado no Triângulo das Bermudas). Ele roubou o Velocino de Ouro em algum momento no passado e o usou para fazer prosperar sua ilha. Na série de TV, Polifemo também usa o velocino para atrair sátiros para sua ilha e obter conhecimento do mundo exterior.
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| Aleks Paunovic interpretou Polifemo na série de TV Percy Jackson |
Quando Percy, Annabeth e Clarisse chegam à ilha, a verdadeira identidade de Grover é revelada, e o ciclope decide que Clarisse será sua noiva e Grover será o alimento da cerimônia. Percy consegue libertar os dois, e Grover participa da fuga. Mais tarde, Polifemo tenta convencer Tyson, seu meio-irmão ciclope, a permanecer com ele e aprender a ser um “ciclope de verdade”, mas Tyson rejeita a proposta, afirmando que Polifemo não é como ele. Assim, a relação entre Grover e Polifemo no romance é essencialmente uma relação de perseguidor e vítima, transformada em uma situação de humor absurdo pelo fato de Polifemo confundir Grover com uma fêmea de sua própria espécie.
Até onde eu pude verificar, Rick Riordan, autor de Percy Jackson, não afirmou explicitamente que baseou seu Polifemo na peça Ciclope, de Eurípides; em vez disso, sua inspiração fundamental direta para o personagem e para o enredo de O Mar de Monstros provém da Odisseia, de Homero. No entanto, a narrativa de Riordan apresenta vários paralelos distintos e referências diretas às tradições específicas da antiga peça satírica de Eurípides.
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| Polifemo na capa de O Mar de Monstros dos livros Percy Jackson e os Olimpianos |
- Sátiros como isca/cativos: Na peça de Eurípides, Sileno e um coro de sátiros são escravizados por Polifemo em sua ilha. Em O Mar de Monstros, Polifemo usa a magia natural do Velocino de Ouro especificamente como isca para atrair sátiros famintos à sua ilha, a fim de devorá-los.
- Romance com o sátiro: Na comédia de Eurípides, um Polifemo fortemente embriagado começa a cortejar o sátiro Sileno, comparando-o a Ganimedes e arrastando-o para dentro de sua caverna. Rick Riordan adapta de forma engenhosa essa ideia bizarra e cômica de sequestro do sátiro para um público infantojuvenil: Grover é forçado a usar um vestido de noiva e tecer um longo véu para enganar o ciclope — que é quase cego — e fazê-lo acreditar que ele é uma noiva ciclope.
Em suma, Riordan combinou os pontos fundamentais do enredo de Homero com os elementos cômicos centrados nos sátiros popularizados por Eurípides para criar sua releitura moderna.
FONTES:
Polyphemos (Theoi)
Polyphemus (Wikipedia)
Cyclops (Wikipedia)
Euripides, Cyclops. David Kovacs, Ed. 566-607. (Perseus Digital Library)
ROMAN, Luke; ROMAN, Monica, eds. (2010). "Cyclops". Encyclopedia of Greek and Roman Mythology. New York: Infobase. p. 126.
Polyphemus e Polyphemus/Disney+ (Riordan Wiki)
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